- PERFIL
- CURRÍCULO
Ainda estudante de medicina comecei a delinear um vago, impreciso, projeto de me tornar um dia um “psicoterapeuta de adolescentes”. Hoje penso que duas foram as principais razões para tal: de um lado a memória recente de uma adolescência um tanto solitária, sem alguém entre meu grupo de iguais ou entre os adultos em quem confiasse e por quem sentisse a necessária empatia e nele vislumbrasse a possibilidade de entender todas aquelas dúvidas, anseios, questionamentos e fantasias que povoavam meu imaginário juvenil; de outro, uma forte inclinação, que permeou toda a minha trajetória profissional, a desbravar novos caminhos antes que percorrer os já existentes.
Por outro lado, sentia-me particularmente atraído pelos aspectos humanísticos da profissão médica, o que me levou a dar continuidade à minha formação profissional na área da psiquiatria, onde me parecia que poderia melhor desenvolver minhas aptidões centradas na relação médico-paciente e exercer ações terapêuticas através do que depois denominei o “remédio gente”.
Quando ingressei no curso de especialização em clínica psiquiátrica na mesma faculdade onde fizera minha graduação – a Faculdade de Medicina da UFRGS – a psiquiatria local era fortemente influenciada pelo movimento psicanalítico, que chegara a Porto Alegre na década anterior através de psiquiatras que haviam feito sua formação analítica em outros centros da América Latina. Saudava-se a psicanálise e a abordagem psicoterápica dela derivada como os recursos que iriam dar novos e definitivos rumos à psiquiatria clássica praticada até então, onde ainda predominavam, no controle das doenças mentais mais severas, as chamadas terapias biológicas (como o eletrochoque e a insulinoterapia) e começava-se a utilizar psicofármacos de espectro terapêutico ainda limitado no tratamento dos distúrbios psíquicos em geral.
Como qualquer principiante segui o fluxo epistemológico prevalente naquele momento histórico da evolução da psiquiatria em nosso meio e, após concluir o treinamento básico como psiquiatra, fui buscar minha formação em psicanálise no instituto formador de psicanalistas existente em Porto Alegre, que na ocasião era o único fora do eixo Rio – São Paulo. Postulava-se que fora do contexto psicanalítico a psiquiatria não teria como evoluir e não foi difícil convencer-me disso e adotar a psicanálise como elemento axial de minha práxis; isso se deveu em parte ao desejo de ser um profissional atualizado com os conhecimentos disponíveis, mas também pelo fascínio que me despertavam as idéias de Freud, aquele Champolion moderno que havia decifrado a escrita do inconsciente e posto à nossa disposição todo um universo a descobrir na mente humana.
Assim segui, pari-passu, a longa caminhada que me levaria à condição de psicanalista, atingindo o cume da carreira analítica com a conquista do título de analista didata na década de 80. No entanto, a mencionada tendência a sair das rotas convencionais e explorar novas trilhas, aliada ao que talvez pudesse se denominar uma vocação para atividades pioneiras, me levaram a percursos outros que não a trajetória linear que se julgava adequada a quem se propunha a fazer da psicanálise seu ofício.
É a essa trajetória alternativa, que me conduziu ao encontro dos novos paradigmas que se estavam gestando no âmbito das ciências em geral, que quero agora me referir.
Recém egresso do curso de medicina e ainda às voltas com o treinamento básico como psiquiatra passei a atender crianças e adolescentes como psiquiatra clínico e psicoterapeuta; o fazia em parte auxiliado por trocas de informações e estudos compartilhados com colegas mais experientes, mas na verdade exercendo uma prática autodidática apoiado na leitura da bibliografia disponível, que, diga-se de passagem, era ainda muito escassa.
A falta de uma instituição onde pudéssemos internar crianças e adolescentes atendidos em nossos consultórios particulares e que apresentavam graves distúrbios mentais me levaram, assim como a outros colegas, a buscar alternativas para preencher essa lacuna. E assim, com a experiência recente do surgimento de uma comunidade terapêutica para adultos em nosso meio (A Clínica Pinel, fundada por Marcelo Blaya-Perez em 1960), um grupo de psiquiatras que trabalhavam com crianças e adolescentes, entre os quais me incluía, teve o necessário estímulo para, a a criação da Comunidade Terapêutica Leo Kanner, em 1965. Essa foi a primeira instituição da América Latina voltada ao atendimento da faixa etária infanto-juvenil com o modelo ambientoterápico inspirado nas idéias pioneiras de Maxwell Jones e adotado pela Clínica Pinel um lustro antes. Com as necessárias modificações para adequar-se à faixa etária que pretendíamos atender, a Comunidade Terapêutica Leo Kanner foi gradativamente ficando com a “nossa fisionomia”, vindo a constituir-se ela, por sua vez, em modelo para o surgimento de outras com o mesmo perfil no país e exterior.
Essa experiência na comunidade terapêutica, da qual fui um dos fundadores, marcou indelevelmente minha trajetória profissional, pois através dela me tornei conhecido como um dos pioneiros da psiquiatria de adolescentes no Brasil. Paralelamente, tendo trabalhos publicados no exterior e granjeando o reconhecimento de outros especialistas do continente, isso me levou anos mais tarde à condição de presidente do Fórum pan-americano para o estudo da adolescência.
Na década de 70 foi prevalente meu trabalho com adolescentes: inicialmente como psiquiatra clínico na comunidade terapêutica, trabalhando com as técnicas ambientoterápicas, logo a seguir como psicoterapeuta apoiado no referencial teórico da psicanálise, mais adiante como grupoterapeuta e finalmente como psicanalista de adolescentes, porém sempre com um estilo muito próprio que sentia como distante do que preconizava a ortodoxia vigente na instituição onde realizava minha formação psicanalítica.
Ainda na década de 70 o crescente interesse pelo trabalho grupal me levou a desenvolver uma cada vez maior atividade com grupos terapêuticos na clínica privada, inicialmente com adolescentes e depois com adultos jovens, partindo da fundamentação psicanalítica para em seguida incorporar os elementos oriundos de uma formação em psicodrama e, já na década de 80, voltado ao atendimento de outras modalidades grupais, como casais e famílias, buscar no exterior condições para assimilar o paradigma sistêmico-cibernético que referenciava a prática da grande maioria dos terapeutas de famílias do mundo. Na realidade, essa busca pelo conhecimento emergente e as práticas psicoterápicas dele provenientes acabou por me tornar um grupoterapeuta e terapeuta de casais e famílias multi-referenciado, com a singularidade de exercer uma práxis clínica alicerçada na dialética e interação entre distintas teorias e paradigmas.
Hoje, lançando um olhar retrospectivo sobre essa trajetória, me percebo com um psicoterapeuta mais direcionado ao que viria-a-ser do que ao que já-era. Essa inquietação prospectiva continua me mobilizando a experimentar, assim como a acompanhar atentamente, novas modalidades de ajuda e cuidados psicoterápicos, sem que tenha, contudo, qualquer inclinação a modismos, a meu ver antes determinados por idiossincrasias pessoais e razões de mercado que pela natural evolução do conhecimento no campo das terapias psicológicas. Também não me sinto compelido a desqualificar, em nome do progresso científico, a contribuição das teorias ou paradigmas do passado, pois visualizo a evolução do pensamento humano segundo a imagem tridimensional de uma espiral ascendente; nesta, cada voluta, representando determinado momento evolutivo, conecta-se tanto com a que lhe antecede como com a que lhe sucede, num continuum sem hierarquias, em torno a um eixo integrador, includente (e) e não excludente (ou).
Após esses quarenta anos de prática psicoterápica mais do que nunca estou convencido que é o futuro, e não o passado, que deve referenciar nossa caminhada profissional (como de resto nossa vida em geral); caminhar de costas para o porvir e com os olhos fixos apenas no que já se fez é arriscar-se a tropeçar, cair e ficar pelo caminho ou, pior que isso, nem sair do mesmo lugar!
• Médico formado pela Fac. de Medicina da UFRGS em 1963
• Especialista em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileira
• Especialista em Psiquiatria Infantil pela ABENEPI / AMB
• Psicanalista titulado pela International Psychoanalytical Association(1978)
• Ex-analista didata da SPPA (1986-1995)
• Curso de especialização em Psicodrama, com a dra. Olga A . de Garcia, de Buenos Aires, Argentina (1976-77)
• Curso de especialização em Terapia Familiar no Istituto di Terapia Familiare de Roma, Itália, com o prof. Maurizio Andolfi (1983)
• Grupoterapeuta exercendo atividades didáticas na formação de especialistas em técnicas grupais no sul do país desde a década de 70
• Fundador e Diretor Técnico da Gruppos desde l995
• Sócio fundador da ACATEF – Associação Catarinense de Terapia de Família
• Sócio fundador e vice-presidente da Associação Humanidades do Brasil
• Membro do Conselho Deliberativo e Científico da Associação Brasileira de Terapia Familiar - ABRATEF - gestão 2002/2004
• Professor do curso de pós-graduação em terapia familiar - GRUPPOS & UNIGUAÇU
• Autor de vários livros